Desde
que a nossa civilização fixou geograficamente para cuidar da
agricultura, todos nós nos abrigamos em algum tipo de residência,
trabalhamos em alguma edificação, nos divertimos dentro de algum
prédio. Já que isso é tão comum, vamos dar uma
olhada na origem de palavras relacionadas com esse assunto.
CASA-
em Latim, esta palavra designava uma cabana, barraca, tugúrio, choça,
edificação rural de pequeno porte. Ela não era usada
para nomear moradas de boa qualidade. Com o correr do tempo, no entanto, ela
passou a ser usada para residências térreas, independente de
qualidade.
As moradas
melhores eram chamadas de domus. Daí resultaram derivados
como domínio, domo, domicílio
e muitos outros.
Domus
também podia ser usado para dizer "pátria, país":
domo emigrare, "sair do seu país".
Para aqueles
que confiam na recompensa futura aos seus bons feitos nesta vida, existe uma
inscrição muito sonora e concisa para uma lápide: Domus
Secunda Donec Tertia. Como tantas frases latinas, a tradução
direta é impossível. O sentido da frase é "Esta
é a minha segunda casa, enquanto espero a terceira", isto é,
o Céu.
CABANA
- vem do Latim capanna, com poucas alterações.
CHOÇA
- é uma palavra que se originou de pluteus, que era o nome
dado pelos romanos a uma fortificação temporária feita
em madeira, complementando as de pedra.
TUGÚRIO
- esta palavra de som meio fúnebre, usada para designar uma morada
de muito baixo nível, era quase a mesma em Latim: tugurium.
EDIFÍCIO
- vem do Latim aedes, "casa, mansão". O nome acabou
se fixando nos edifícios que existiam em Roma e que tinham até
cinco andares, usados como morada para as pessoas de baixa renda. Eles eram
chamados insulae, "ilhas". Continham apartamentos muito
pequenos, absolutamente desconfortáveis, com péssimas condições
de ocupação. Formavam verdadeiras armadilhas em caso de incêndio.
Havia
um magistrado romano que era chamado de aedilis. Competia-lhe cuidar
de questões de habitação (daí o nome), abastecimento,
inspeção dos mercados, etc. Derivou daí o outro nome
dado aos nossos vereadores, que às vezes se tratam um ao outro de "nobre
edil".
Um
acréscimo feito a uma residência, como uma peça a mais,
costuma ser chamado de "edícula". Esse nome vem justamente
de aedes, com o acréscimo do sufixo diminutivo.
MANSÃO
- vem do Latim mansio, de mansus, particípio passado
de manere, "ficar, permanecer", relacionado
com o Grego menein, "permanecer".
Tal palavra
acabou designando uma casa de grandes dimensões e de muito boa apresentação.
MANSARDA
- apesar da semelhança, não tem relação direta
com "mansão". Vem do Francês mansarde, palavra
feita a partir do sobrenome de François Mansart, arquiteto
falecido em 1666. Foi ele quem criou os telhados com duas inclinações
de cada lado, a de baixo mais inclinada que a de cima.
Até
hoje casas com este tipo de cobertura são as preferidas para histórias
assustadoras. Nada como um telhado destes para evocar fantasmas desembestando
de correr atrás de mocinhas indefesas que serão defendidas por
mocinhos intrépidos e que logo depois de resolverem a questão
vão ser felizes para sempre.
TELHADO
- esta palavra se impõe a partir do paragráfo aí acima.
Veio do Latim tegula, de tegere, "cobrir". Em
Biologia, tegumento é o nome dado à pele que
cobre um animal.
PRÉDIO
- do Latim praedium, que vem de praes, "fiador, aquele
que garante um empréstimo, bens do fiador". Em Direito Romano,
era a garantia em imóveis que era dada para se obter um empréstimo.
Ou vocês
acham que naquela época os negócios ainda eram feitos com o
fio da barba? Isto deve ter terminado com a expulsão de Adão
e Eva do Jardim do Éden.
TERRENO
- todo prédio se situa num terreno, pelo menos aqui neste mundo. E
esta palavra vem do Latim terrenum, "formado de terra".
A linguagem
eclesiástica passou a usar esta palavra com o sentido de "ligado
a este mundo", em oposição às coisas relativas ao
outro mundo, isto é, "celestiais".
PÁTIO
- seria bom que todas as moradas tivessem um pátio
para as crianças poderem brincar. Tal palavra vem do Latim patere,
"aberto, amplo, visível".
CORREDOR
- o nome vem do verbo latino currere, "correr". É
uma peça da casa que interliga as outras e normalmente se mantém
desimpedida, de modo que dá até para correr ao longo dela. Em
Português a sua origem é evidente, mas para os povos de língua
inglesa é um achado.
Nos
palácios dos últimos Luíses da França os arquitetos
ainda não tinham incorporado a idéia do corredor, de modo que
se tinha que passar de um quarto para outro para chegar até onde se
queria. Essa é mais uma razão para as camas antigas terem aquelas
colunas nos cantos e dosséis de tecido que ocultavam o seu interior.
QUARTO
- vem do Latim quatuor, "quatro". Inicialmente teve a significação
de "a quarta parte da casa", talvez não em área mas
em função.
Essa denominação
foi usada numa frase de pára-choque de caminhão: "Estou
rezando 1/3 para encontrar 1/2 de te levar para 1/4." O motorista era
sincero.
COZINHA
- do Latim coquere, "cozinhar". Seu particípio passado
era coctus. Nas longas viagens marítimas a massa era cozida
duas vezes para formar uma espécie de bolacha, para evitar o bolor.
Por isso aquele alimento era chamado de bis, "duas vezes"
+ coctus, "cozido". Era o nosso conhecido biscoito,
que ficava com uma consistência semelhante à madeira de lei.
Os enfeites
em biscuit, um tipo de porcelana, se
chamam assim porque o material é cozido duas vezes também. O
nome dado a eles é o que se usa em Francês.
BANHEIRO
- era o local do domus dedicado à higiene pessoal. Como se
podia tomar banho ali, o nome veio de balneum, "banho privado".
A palavra "privado" é usada aqui porque, na antiga Roma,
era costume se tomar banho em estabelecimentos públicos, onde eram
feitos encontros entre amigos e se discutiam as fofocas mais recentes.
ESCADA-
muitas vezes se necessita este meio de passar de um andar para outro numa
edificação. Seu nome vem do Latim scalare, "subir".
A comparação
entre uma escada, com os degraus por onde a pessoa se desloca em comprimentos
predeterminados, deu origem à escala, uma série
de notas musicais com intervalos definidos ou uma convenção
para efetuar diversas medidas..
Na Idade
Média, as escadas que levavam aos torreões dos castelos voltavam-se
sempre para a direita de quem subia. A idéia era facilitar o eventual
uso da espada de um defensor que estivesse na posição mais elevada
e dificultar a manobra da arma por parte de quem atacava.
Dá
para imaginar um corpo de elite para atacar torres de castelos, composto apenas
por canhotos.
ELEVADOR
- quando este existe, é mais fácil usá-lo do que subir
pela escada... O seu nome vem do Latim elevare, "erguer".
Note-se
que a construção de edifícios com mais de cinco andares
só foi possível a partir da sua invenção. E como
se deu esta?
Um certo
Elisha Otis era chefe dos mecânicos numa fábrica de camas em
Nova Iorque, em 1852. Em certo momento, foi preciso levar máquinas
pesadas para os andares superiores do prédio e ele inventou um mecanismo
de alçar pesos com dispositivo de segurança automático
que impedia a queda.
Sua idéia
fincionou tão bem que ele saiu da empresa, fundou a Otis Steam Elevator
Company e em 1857 instalou o primeiro elevador de passageiros numa loja de
louças na Broadway.
Note-se
que os primeiros elevadores, como diz o nome da empresa pioneira, eram movidos
a vapor. O primeiro elevador elétrico começou a funcionar em
1899.
ESCADA
ROLANTE - rolante vem de rotulum, "cilindro,
pequena roda", que vem do Latim rota, "roda".
A mesma
empresa Otis desenvolveu este equipamento em 1900, para a Exposição
de Paris. A idéia já existia, mas o que se usava eram rampas
rolantes, as quais ocupavam mais espaço porque precisavam ser mais
inclinadas.
Quando
escadas rolantes foram instaladas no Metrô de Londres, em 1911, a maioria
das pessoas se recusava a usá-las, por medo. A Direção
do Metrô resolveu o problema com um belo golpe de "marketing":
contratou um homem com uma perna de pau para ficar subindo e descendo o dia
inteiro por ali, de modo a tranqüilizar o público.
SÓTÃO
- vem do Latim subtulum, de subtus, "o que está
debaixo". Debaixo do telhado, da cobertura da casa, subentende-se.
Hoje são
poucas as casas que têm um espaço utilizável entre o telhado
e o forro. Mas, quando existe, ele é ideal para se guardar aquelas
coisas que jamais vão ser usadas mas que não temos coragem de
botar fora. Ou que vão ser necessárias três dias depois
que a gente criou coragem para se livrar delas.
A expressão
"ter macaquinhos no sótão" era muito usada para designar
uma pessoa que tinha alguma coisa estranha por dentro da cabeça.
FORRO
- esta palavra, ao contrário das outras, não tem origem latina.
Vem do Francês antigo feurre, "guarnição
interna", de origem germânica.
Além
de designar a separação horizontal entre o telhado e os aposentos,
numa casa, nomeia a colocação de tecido acompanhando o interior
de uma peça de vestuário, seja por estética, seja para
conforto tátil e térmico.
GOTEIRA
- quem vive numa casa que tem telhado e forro muitas vezes tem que se livrar
de uma goteira. Este nome vem do Latim gutta, "gota".
Existe
uma substância elástica como borracha chamada guta-percha,
que é um material gelatinoso retirado de plantas sapotáceas,
cujo nome nada tem a ver com o Latim gutta.
A palavra
vem do Inglês gutta-percha, que a tirou do Malaio getah
percah, de getah, "seiva, látex" e percah,
"a árvore que produz esta seiva". Trata-se de material de
uso importante em Odontologia.
PORÃO
- vem do Latim planus, "liso, chato, plano". É termo
náutico; nos navios, designa "o espaço entre o convés
mais baixo e o fundo do casco".
É
mais uma peça que não existe nas casas atuais. Parece ser comum
ainda em casas americanas. E aparenta ser uma escolha preferencial para esconder
corpos, se dá para acreditar nos filmes que passam na TV.
DESPENSA
- eis mais uma peça difícil de encontrar numa casa hoje. Seu
nome vem de despender, do Latim dispendere, "gastar",
pois era ali que se guardavam as coisas necessárias ao funcionamento
da casa e com as quais se havia feito gastos.
Atualmente,
nas cidades maiores, os supermercados sempre à mão dispensam
a despensa, tomando-lhe o lugar.