Meu avô
está sentado à sua cadeira estofada de couro, para variar, lendo.
Deixou a porta entreaberta e de repente vê a cabeça de um menino
de nove anos espiando-o. Sou eu. Ele larga o livro e me chama para entrar.
Só
muito tempo depois foi que percebi que aquela porta não estava aberta
por acaso. Ele esperava a visita da minha família e sabia que o seu
neto predileto acabaria indo vê-lo.
Entrei
e, depois dos cumprimentos, já fui perguntando:
- Vô,
o senhor sabe que lá na sala está reunido um montão de
mulheres que eu não conheço, além das tias, minha mãe
e a Vó?
- Sei,
filho, hoje estava marcada uma reunião para demonstração
de vendas de produtos femininos. Elas estão muito assanhadas?
- Parece
que sim, estão todas de olhos arregalados, falando sem parar e nem
me enxergaram...
Ele riu:
- Você
está me saindo um bom observador. É bem assim que elas ficam
nessas ocasiões.
- Mas
eu não entendi uma coisa. A senhora que trouxe uma porção
de bolsas e está comandando aquilo tudo falou em gosméticos
e todas ficaram ainda mais interessadas. O que é isso? É algum
produto para limpar gosma ou elas estão querendo comprar gosma em potes?
- Essa
é muito boa. Veja como entender mal uma única letra pode dar
confusão, ainda mais se uma imaginação fértil
como a sua entra em cena.
Ouça:
gosma é um palavra feita a partir do verbo gosmar,
que ao que tudo indica vem do Espanhol gormar,
"vomitar", com o mesmo significado que o nosso pouco conhecido gosmar.
Gosma
também
é "uma doença respiratória da galinha", bem
como "catarro". Blurgs, este assunto está meio como que nojento,
mas já vamos para outras esferas.
Agora,
o que faz brilhar os olhos dessas senhoras, benditas sejam, são os
cosméticos, menino, com "C".
Esta palavra
vem do Grego kosmetés, "criado de quarto", que era
geralmente um escravo.
Acontece
que - olhe que bonito! - kosmós em Grego significava "ordem,
disciplina, organização". Esse significado de "ordem"
mais tarde se expandiu para englobar "a ordem do Universo" e finalmente
se fixou como sinônimo de "Universo".
O kosmetés
era a pessoa que arrumava - colocava em ordem - as roupas, atavios, pinturas
e perfumes de sua senhora (kósmesis era "enfeite, adorno").
O nome dessa função acabou se fixando em parte dos materiais
com que ele lidava, gerando os nossos conhecidos cosméticos.
- E para
que é que elas gastam tanto tempo e dinheiro se pintando, vô?
Uma vez a Mãe estava toda arrumada e pintada para ir a uma festa com
o Pai; quando eu vi, disse que ela parecia um guaxinim e ela ficou uma fera
comigo. Mas deu para notar notar que o Pai achou graça escondido, por
isso não me assustei muito. Qual é o problema? Eu acho o guaxinim
um bicho tão bonitinho...
O velho
riu muito:
- Meu
filho, você desse jeito não vai ter sucesso com as mulheres.
Ainda bem que há muito tempo para aprender ainda. Elas se pintam, dizem,
para ficar bonitas para os homens. Agora, vou-lhe contar uma coisa muito especial:
na verdade é para poderem enfrentar as outras mulheres numa luta muito,
muito antiga.
Mas deixemos
disso, que se elas descobrirem que estamos entrando nos seus segredos vão
querer nos crucificar.
Vamos
falar de coisas menos perigosas. Já que o assunto é a arrumação
das nossas queridas companheiras - não faça essa cara, que você
não escapa de ter uma, e vai gostar! - vamos aprender algo sobre os
objetos que elas usam para isso.
Por exemplo,
o espelho. É nele que elas se avaliam, e geralmente
não gostam do que vêem. Êta pessoal de autoestima problemática!
Essa palavra
vem do Latim speculum, de specere, "fitar, olhar".
Existe inclusive mais de um instrumento médico com o nome de espéculo,
servindo para olhar dentro de uma cavidade do corpo.
Antigamente
elas se olhavam num móvel com espelho e gavetas que tinha nome francês,
o boudoir.
Este tem
uma história interessante: bouder em Francês quer dizer
"amuar-se, emburrar, enfadar-se". Como as mocinhas contrariadas
muitas vezes se trancavam no quarto e se sentavam junto a esse móvel
para chorar - ou fingir que choravam -, o objeto acabou recebendo o nome dos
chiliques que sobre eles eram praticados. Até o aposento em que ele
ficava recebeu esse nome.
Hoje as
mulheres, felizmente, têm outras maneiras de demonstrar sua desconformidade
e talvez por isso as fábricas pouco fazem boudoirs.
Ou será porque os apartamentos são muito pequenos?
De qualquer
forma, o nome mais adequado para este móvel é toucador.
Este vem do Celta tauka, "abrigo de pano para a cabeça",
que era muito usado antes. Havia até o costume de usar uma touca
para dormir, muito ilustrado nas figuras européias do século
dezenove.
O nome
toucado passou a um tipo de chapéu feminino e depois
passou a designar "adornos para a cabeça" e principalmente
"penteado". E
toucador era, portanto, o móvel onde se faziam toucados,
ou seja, onde a dama se penteava.
- Às
vezes eu tenho vontade de mexer nas gavetas da Mãe, que tem tanta coisa
para guardar.
- Não
arrisque o seu pescoço. Além de ser feio fazer isso, o que ela
tem por lá não lhe interessa. Aliás, sabe que
gaveta antigamente significava "prato de madeira, tigela, escudela",
nos navios da Idade Média.
- Escudela?
Por quê? Era usada como escudo nas brigas pela sobremesa?
- Porque
tinha a forma redonda de um escudo, seu vivo. Em Latim clássico, a
palavra era gabata. Depois passou ao Italiano gavetta e
acabou na sua forma atual, tanto na palavra em si como no significado.
- Meus
pais devem achar legal aquele móvel que tem gavetas grandes, porque
eles o chamam de "cômoda".
- Chamá-lo
assim não é propriamente idéia deles. O nome vem do Latim
commodus, "agradável, apropriado". É um lugar
adequado para guardar coisas que a gente nunca vai usar e que acaba botando
fora duas semanas antes de precisar delas.
- Uma
vez vi a Mãe dizer que ia botar fora uma porção de coisas
que não prestavam, começando por mim e pelo Pai e me assustei.
Primeiro me consolei um pouco pensando que pelo menos estaria na companhia
dele, depois percebi que eles estavam de brincadeira.
- Quando
a gente é pequeno custa um pouco a perceber as coisas. De qualquer
maneira, você sabe que tem sempre abrigo na casa dos seus avós,
não sabe?
Fiquei
sabendo então,
e ao longo da adolescência, que nunca é fácil, essa noção
viria a ser de grande consolo para mim.
- Mas
vamos deixar de pensamentos tolos. Sabe o que é que elas tanto guardam
nas suas gavetas?
Por exemplo,
brincos. Esta palavra vem do Latim vinculum, "corrente,
cadeia". Ou os brincos antigos tinham essa forma ou as moças de
antanho os usavam para acorrentar os corações dos rapazes.
Se um
dia você for dar brincos para a sua namorada, use uma palavra agora
desconhecida mas que faz parte ainda do nosso idioma: arrecadas. Antigamente
se dizia alcarrada; essa palavra veio do Árabe al-qarrat.
Que tal dizer: "Minha gata, aceite estas arrecadas como
penhor de minha admiração."?
- Como
é que é, vô?
- Deixe
para lá, senão ela vai se matar de rir e não vai dar
certo. Se há coisa que estraga um momento romântico é
o riso.
Olhe,
outro enfeite que elas usam é o colar, do Latim collaris,
"relativo ao pescoço", que era collum em Latim.
- E essas
que usam os enfeites pregados no corpo?
- Pois
é, devem gostar muito para fazerem isso. Imagino que aquilo deve incomodar,
especialmente quando se chega a colocar na boca e na língua.
O nome
usado é o Inglês piercing, que chegou lá através
do Francês percer, "penetrar, furar, cortar". Nos
Estados Unidos, há uns dois ou três séculos, havia uma
tribo que os franceses tinham chamado de nez percé, "nariz
cortado", por que eles se enfeitavam assim. E percer vem do
Latim pertundere, "furar, romper".
- A Mãe
gosta muito daquele broche que o senhor deu para ela, e que era da sua mãe,
Vô.
- Ele
é bonito. Sei que ela gostou; vi nos olhos dela, que só me abraçou
forte e não disse nada.
Broche
veio direto do Francês broche, que veio do Latim brocca,
"ponta, dente".
- E a
broca do dentista, vem daí?
- Bem
lembrado. Seu nome tem a mesma origem, pois ela é usada para furar.
Aliás, existem vários vermes que perfuram madeira e são
chamados de brocas.
Se um
dia você der um bonito broche para uma moça,
talvez isso faça desabrochar - "desprender, abrir",
da mesma origem - a simpatia dela por você.
Mas você
não precisa dar jóias para agradar a uma moça, seja qual
for a idade dela e o que ela significar para você. Dê flores,
flores, que é algo que sempre lhes vai tocar o coração.
Há homens que não entendem esse fato; é porque eles têm
dificuldade de se colocar no lugar dos outros.
E assim
demos uma olhada por alto em vários tipos de jóias.
Aliás, esta palavra vem do Italiano gioia, que veio
do Latim gaudium, "alegria", pois ganhar um objeto desses
sempre traz essa sensação. Dar também.
- E os
cosméticos, Vô?
- Chii...
Há muitos tipos, e entendo pouco deles. Vejamos: o que me ocorre de
saída é o perfume. Esta palavra vem do Latim
per fumum, "penetrar através da fumaça".
Este fumum vem do Sânscrito dhuma, "fumo",
que originou dust, "poeira" em Inglês.
Os sacrifícios
antigos eram consumados pelo fogo, e a fumaça dos animais e objetos
queimados subia aos céus para informar aos deuses que havia alguém
cumprindo rituais sagrados aqui embaixo. Assim, literalmente esse fato "penetrava
pela fumaça" nas narinas das divindades. Que, aliás, ficavam
muito contentes.
Quando
uma vítima de sacrifício era totalmente queimada, dizia-se que
era um holocausto. Isto vem do Grego holos, "inteiro"
e kaustós, "queimar": "queimado por inteiro".
- Legal,
Vô! Sacrifícios, deuses... Estou gostando mais!
- É,
está mais de acordo com o espírito do seu tempo, não?
Isto me lembra de algo que liga um cosmético a uma coisa que infelizmente
sempre esteve na moda. É o seguinte: as egípcias do tempo dos
Faraós já usavam um finíssimo pó preto para pintar
os olhos, cujo nome chegou até nós pelo Árabe kohl,
de um idioma semita kakhal, "pintar, tingir".
Ao ver
a pintura de uma mulher egípcia arrumada você notará logo
a pintura negra nos olhos.
- Que
nem guaxinim, vô?
- Que
nem guaxinim, mas veja só: mais tarde esse nome foi aplicado a qualquer
pó muito fino, que facilmente era deslocado pelo vento, e depois a
líquidos que davam essa impressão por serem muito voláteis.
Na época,
o líquido volátil mais conhecido era o etanol, que é
a substância que torna o vinho embriagador. Daí que este passou
a ser chamado de al kohl, "o fino, o volátil":
eis aí o álcool.
Sei que
existe também um pó para deixar coradas as faces das moças,
que no meu tempo era conhecido como rouge, "vermelho" em
Francês. Agora ele tem um nome inglês, blush. Esta palavra
vem do Inglês Antigo blyscan, "avermelhar". To
blush em Inglês moderno significa "ruborizar, corar".
Falando
em vermelho, lembrei-me do batom. A expressão original
era o Francês bâton de rouge, "bastão de
material vermelho", que acabou ficando só no bâton.
E o esmalte
para as unhas vem do Germânico smalt, "verniz". Será
que foi a esposa de um fabricante de navios antigos, com a madeira impermeabilizada
por esmalte, que teve a idéia de o passar nas unhas primeiro?
- E o
talco, Vô? Vejo que o senhor tem uma caixinha ali na prateleira.
- O talco
é um pó de silicato que não é muito bem visto
para ser aplicado na pele pelos dermatologistas. Mas antes era um presente
muito apreciado pelas senhoras e moças. Vem do Árabe talq,
"gesso, amianto".
- E o
que é que o senhor faz com ele, se não é bom usar na
pele?
- Conserto
os desastres que às vezes faço à mesa. Volta e meia eu
derramo algum alimento com gordura na roupa. Mas basta passar talco em cima,
esperar um pouco e escovar, que a mancha diminui muito.
- Bem
que a Vó diz que o senhor é desastrado!
- Bobagem.
É pura inveja dos meus movimentos precisos e graciosos. Mas agora vá
brincar no pátio, rapaz, que o seu cérebro já deve ter
virado uma gosma de tanta sabedoria.