Meu avô estava muito contente por
saber que eu tinha entrado na Faculdade. Mas não queria demonstrar que estava
babando. No entanto, não conseguia disfarçar sua alegria. Eu o conhecia muito
bem; percebia tudo mas fingia que não.
Acredito que ele soubesse que eu
sabia, mas aquela cumplicidade tácita corria entre nós há anos e estávamos
acostumados a ela.
Ele queria que eu descrevesse como
era a minha faculdade e a certa altura perguntou sobre bedel.
- Que é isso, Vô?
Nunca ouvi falar. Algum periférico novo de computador?
- Tudo tem que ser eletrônico agora,
rapaz? Bedel era um
funcionário das faculdades que se encarregava de dar apoio aos professores com
listas de chamada e outras tarefas administrativas. Vem do Francês antigo bedel, "infante, oficial de
Justiça", de uma forma bidal, relacionada com o Alemão bieten, "rezar, rogar".
- Já que o senhor está disposto
(piada minha- ele sempre estava), que tal me ensinar
umas origens de palavras relacionadas com a faculdade?
- Já que você está disposto a ouvir-me hoje
(foi a sua vez, pois eu sempre estava), podemos começar com a própria faculdade. Esta vem do Latim facultas,
inicialmente "poder, capacidade, riqueza", derivado de facilis,
"possível de ser feito sem esforço", derivado de facere, "fazer". O
sentido acadêmico vem da conotação "capacidade de conhecimento".
As faculdades são parte de um
todo, a Universidade. O
nome desta vem do Latim universitas,
"corpo, sociedade", inicialmente "o todo, agregado", de universum, "inteiro, o todo".
E universum literalmente queria
dizer "tornado um", pois se forma de unus, "um", mais versus, particípio passado do verbo vertere,
"voltar, virar".
O nosso uso dessa palavra vem da
expressão universitas magistrorum et scholarium,
"comunidade de mestres e estudiosos". Aposto que nem o seu reitor
sabe disso.
- Puxa! Qualquer
dia vou perguntar> se ele sabe, caso ele não me expulse por desaforado.
Falando nisso, e reitor?
- Vem do Latim rector, "governador, guia,
chefe", derivado do verbo regere, ">guiar, governar". No início era usado só para os
governadores das províncias do Império Romano e para Deus. Lá pelo século XVIII
ficou apenas para alguns religiosos e para os mais altos dirigentes das
universidades.
- E os professores?
- Derivam
do Latim professor,
"aquele que proclama o seu conhecimento em algum ramo", de profiteri,
"clamar, declarar abertamente", formado por pro-, "à frente, em público",
mais fateri,
"confessar, reconhecer".
- Só se fala nessa gente que
incomoda; e os alunos?
- eu sabia que o velho ia se atacar.
- Quem é que incomoda, rapazinho?
Só porque eles se sacrificam para tentar enfiar conhecimento na cabeça oca dos
jovens... - percebeu que eu estava a me divertir com ele, fez uma carranca das
mais falsas e prosseguiu - muito bem, seu engraçadinho, aluno vem do latim alumnus,
"pupilo", literalmente "afilhado".
Deriva do verbo alere, "nutrir, alimentar".
É muito bonita a noção de que ensinar é dar um tipo de nutrição à alma de
alguém. E olha que não engorda nem aumenta o colesterol!
- Em Inglês se usa essa palavra,
não? Outro dia li algo citando alumni.
- Sim, mas cuidado quando for
traduzir. Eles a usam apenas para dizer "ex-alunos", referem-se aos
"que foram nutridos".
Para eles, se alguém é alumnus de tal faculdade, quer dizer que ele a cursou algum dia, que não faz mais parte do corpo
discente.
- Ah, Vô, taí mais uma que eu queria
saber. Corpo decente
quer dizer uma gatinha malhadinha, saradinha?
- Quer dizer que o seu corpo vai ficar indecente com a
surra que lhe vou dar se continuar com piadinhas bobas. Corpo discente - com "SC", ouviu?
-, o conjunto dos estuantes, vem do Latim discens, "aquele que
aprende", do verbo discere>, "aprender, estudar, saber".
Se bem que me parece que não é bem isso que se faz hoje em dia na faculdade.
E quem sofre as barbaridades do
corpo discente é o
corpo docente, que vem
de docens,
"o que ensina", do verbo docere, "ensinar".
- Vô, o senhor falou ali acima em acadêmico. E isso, de onde vem?
- É uma história meio comprida.
Certa vez, uma moça chamada Helena foi raptada por um herói chamado Teseu..
- Eu vi esse filme! Era um tal de Páris, não Teseu! - os olhos azuis do velho brilharam,
ferozes:
- Pois leia o livro!!! E trate de esquecer esse filme onde os gregos usavam
espada às costas que nem os japoneses.
- Tá bom, Vô, eu li o livro, sim, o senhor me emprestou. Só queria inticar mesmo.
-Eu sei, lembro-me perfeitamente de
lhe ter emprestado o livro. Eu só queria assustar mesmo... Mas, dizia eu, os
irmãos dessa moça, Cástor e Pólux,
andavam à cata dela e receberam a pista que queriam de
um fazendeiro chamado Akademos, que morava perto de Atenas. Desde então
aquele local foi considerado sagrado e protegido.
Mais tarde, Platão instalou ali a
sua escola, que acabou recebendo o nome de Akademia, palavra que até hoje é
usada para designar instituições de ensino do mais alto grau.
- E aula, isso que a gente não gosta de ter? - meu avô me
olhou com desprezo e explicou:
- Vem do Latim aula, "pátio, palácio", do
Grego aulé,
"pátio, espaço aberto", que era onde primeiro se tentava ensinar os
cabeças-duras que nem você. Ali se estuda,
palavra que vem do Latim studiare,
de >studium,
"estudo, aplicação", originalmente "ansiedade por fazer
algo", de studere,
"ser diligente, empurrar". Desde mais ou menos o ano 1300 começou a
ser usado com o sentido de "aplicar a mente para adquirir
conhecimento".
- Bárbaro, Vô. Mas hoje vou ter que sair cedo para estudar, já que sou um aluno, um acadêmico, pertenço ao corpo discente.
- Muito bem, meu rapaz. Veja se você
me consegue sair da universidade
com um pouco mais de conhecimento do que um bedel.