Edição:  35
13 / 03 / 2007

 

 

 

CONVERSAS COM MEU AVÔ - ESTUDO

Meu avô estava muito contente por saber que eu tinha entrado na Faculdade. Mas não queria demonstrar que estava babando. No entanto, não conseguia disfarçar sua alegria. Eu o conhecia muito bem; percebia tudo mas fingia que não.

Acredito que ele soubesse que eu sabia, mas aquela cumplicidade tácita corria entre nós há anos e estávamos acostumados a ela.

Ele queria que eu descrevesse como era a minha faculdade e a certa altura perguntou sobre bedel.

- Que é isso, Vô? Nunca ouvi falar. Algum periférico novo de computador?

- Tudo tem que ser eletrônico agora, rapaz? Bedel era um funcionário das faculdades que se encarregava de dar apoio aos professores com listas de chamada e outras tarefas administrativas. Vem do Francês antigo bedel, "infante, oficial de Justiça", de uma forma bidal, relacionada com o Alemão bieten, "rezar, rogar".

- Já que o senhor está disposto (piada minha- ele sempre estava), que tal me ensinar umas origens de palavras relacionadas com a faculdade?

- Já que você está disposto a ouvir-me hoje (foi a sua vez, pois eu sempre estava), podemos começar com a própria faculdade. Esta vem do Latim facultas, inicialmente "poder, capacidade, riqueza", derivado de facilis, "possível de ser feito sem esforço", derivado de facere, "fazer". O sentido acadêmico vem da conotação "capacidade de conhecimento".

As faculdades são parte de um todo, a Universidade. O nome desta vem do Latim universitas, "corpo, sociedade", inicialmente "o todo, agregado", de universum, "inteiro, o todo".

E universum literalmente queria dizer "tornado um", pois se forma de unus, "um", mais versus, particípio passado do verbo vertere, "voltar, virar".

O nosso uso dessa palavra vem da expressão universitas magistrorum et scholarium, "comunidade de mestres e estudiosos". Aposto que nem o seu reitor sabe disso.

- Puxa! Qualquer dia vou perguntar> se ele sabe, caso ele não me expulse por desaforado. Falando nisso, e reitor?

- Vem do Latim rector, "governador, guia, chefe", derivado do verbo regere, ">guiar, governar". No início era usado só para os governadores das províncias do Império Romano e para Deus. Lá pelo século XVIII ficou apenas para alguns religiosos e para os mais altos dirigentes das universidades.

- E os professores?

- Derivam do Latim professor, "aquele que proclama o seu conhecimento em algum ramo", de profiteri, "clamar, declarar abertamente", formado por pro-, "à frente, em público", mais fateri, "confessar, reconhecer".

- Só se fala nessa gente que incomoda; e os alunos? - eu sabia que o velho ia se atacar.

- Quem é que incomoda, rapazinho? Só porque eles se sacrificam para tentar enfiar conhecimento na cabeça oca dos jovens... - percebeu que eu estava a me divertir com ele, fez uma carranca das mais falsas e prosseguiu - muito bem, seu engraçadinho, aluno vem do latim alumnus, "pupilo", literalmente "afilhado".

Deriva do verbo alere, "nutrir, alimentar". É muito bonita a noção de que ensinar é dar um tipo de nutrição à alma de alguém. E olha que não engorda nem aumenta o colesterol!

- Em Inglês se usa essa palavra, não? Outro dia li algo citando alumni.

- Sim, mas cuidado quando for traduzir. Eles a usam apenas para dizer "ex-alunos", referem-se aos "que foram nutridos".

Para eles, se alguém é alumnus de tal faculdade, quer dizer que ele a cursou algum dia, que não faz mais parte do corpo discente.

- Ah, Vô, taí mais uma que eu queria saber. Corpo decente quer dizer uma gatinha malhadinha, saradinha?

- Quer dizer que o seu corpo vai ficar indecente com a surra que lhe vou dar se continuar com piadinhas bobas. Corpo discente - com "SC", ouviu? -, o conjunto dos estuantes, vem do Latim discens, "aquele que aprende", do verbo discere>, "aprender, estudar, saber". Se bem que me parece que não é bem isso que se faz hoje em dia na faculdade.

E quem sofre as barbaridades do corpo discente é o corpo docente, que vem de docens, "o que ensina", do verbo docere, "ensinar".

- Vô, o senhor falou ali acima em acadêmico. E isso, de onde vem?

- É uma história meio comprida. Certa vez, uma moça chamada Helena foi raptada por um herói chamado Teseu..

- Eu vi esse filme! Era um tal de Páris, não Teseu! - os olhos azuis do velho brilharam, ferozes:

- Pois leia o livro!!! E trate de esquecer esse filme onde os gregos usavam espada às costas que nem os japoneses.

- Tá bom, Vô, eu li o livro, sim, o senhor me emprestou. Só queria inticar mesmo.

-Eu sei, lembro-me perfeitamente de lhe ter emprestado o livro. Eu só queria assustar mesmo... Mas, dizia eu, os irmãos dessa moça, Cástor e Pólux, andavam à cata dela e receberam a pista que queriam de um fazendeiro chamado Akademos, que morava perto de Atenas. Desde então aquele local foi considerado sagrado e protegido.

Mais tarde, Platão instalou ali a sua escola, que acabou recebendo o nome de Akademia, palavra que até hoje é usada para designar instituições de ensino do mais alto grau.

- E aula, isso que a gente não gosta de ter? - meu avô me olhou com desprezo e explicou:

- Vem do Latim aula, "pátio, palácio", do Grego aulé, "pátio, espaço aberto", que era onde primeiro se tentava ensinar os cabeças-duras que nem você. Ali se estuda, palavra que vem do Latim studiare, de >studium, "estudo, aplicação", originalmente "ansiedade por fazer algo", de studere, "ser diligente, empurrar". Desde mais ou menos o ano 1300 começou a ser usado com o sentido de "aplicar a mente para adquirir conhecimento".

- Bárbaro, Vô. Mas hoje vou ter que sair cedo para estudar, já que sou um aluno, um acadêmico, pertenço ao corpo discente.

- Muito bem, meu rapaz. Veja se você me consegue sair da universidade com um pouco mais de conhecimento do que um bedel.

 

 




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