Edição:  4
06 / 12 / 2004

 

 

 

CONVERSAS COM MEU AVÔ - DESASTRE

Cheguei ao pátio da casa dos meus avós e vi o velhote sentado numa cadeira rústica, olhando as brincadeiras do seu gato entre as plantas baixas.Fui logo falando sobre algo que me intrigava:

- Vô, o primo Ricardo me disse que os Considerandos eram uma tribo bárbara que dava muito trabalho aos advogados antigamente, mas pela cara dele achei que não era verdade. Ou é?

Ele deu uma risada:

- A coisa é diferente, se bem que às vezes... Muito gracioso, esse seu primo. Você fez bem em desconfiar e vir falar comigo. É assim, ó...

Sentei-me num banquinho de madeira enquanto o gato Bonifácio vinha brincar com meus dedos e dar delicadas mordidinhas neles.

- Os romanos tinham três palavras para dizer estrela: aster, stella e sidum. Esse aster vinha direto do Grego. E parece que o Grego a tinha recebido, após várias voltas, de uma raiz Indoeuropéia ster, que significava "espalhar", já que as estrelas se encontram espalhadas pelo céu.

Seja como for, essas três palavras deram origem a um grande número de outras em nosso vocabulário.

Por exemplo, o verbo considerar vem de con, "junto", em Latim, mais sidus, "estrela". Os romanos pensavam que, para avaliar uma situação, precisavam analisar como se mostravam as estrelas, já que estas lhes definiriam o destino.

- A tia Béti acredita nisso, né? Ela sempre diz que a pessoa age assim e assado porque é de tal signo e lê o horóscopo.

- É verdade. Ela acredita na Astrologia, que é uma palavra derivada justamente desse aster. Desse estudo dos astros foi que derivou a Astronomia, de aster mais nomos, "arranjo", pois as características apontadas pelas descobertas precisavam ser ordenadas num sistema científico.

- E as constelações que o senhor me mostra à noite, Vô? Parece que tem uma stella aí no meio dessa palavra.

Os olhos dele brilharam:

- Muito bem! Você está me saindo um etimologista! Certo, constelação tem uma formação igual à de considerar, só que em vez de sidum se usou stella. Significa o desenho que certos grupos de estrelas parecem formar no céu.

Outra palavra que se usa muito vem do Latim dis, "mau, inadequado, ruim" mais aster. Conforme os antigos - e muitos crédulos modernos - se os astros não lhe forem favoráveis, você pode se dar mal, sofrendo um desastre de algum tipo.

Entusiasmado pelo elogio que recebera, resolvi impressionar:

- E haste também tem que ver, né?

- Não dá para elogiar... Você não consultou as estrelas e acaba de se desastrar. Essa palavra que você disse é com "H" e vem de hasta, "lança" em Latim. Aliás, um tipo de lança, pois eles tinham também o pilum...

- Puxa! Fale mais das armas deles, Vô!

- Está bem, mas só um pouco. Deixe-me acrescentar que hasta ainda é usada em nosso idioma, mas unicamente na expressão hasta pública, que quer dizer uma venda em leilão feita pelo Estado. A expressão deriva do fato de que, quando se ia fazer um leilão em Roma, eles cravavam uma lança no chão, à entrada do local, como aviso.

- E qual era a diferença entre essas lanças?

- A hasta tinha uma lâmina curta e o jeito convencional de uma lança. O pilum tinha uma haste de madeira mais curta e grossa, e dela partia uma outra haste comprida de metal, cilíndrica, que terminava em ponta.

Eles tinham um uso particularmente cruel para esta. Se pudessem fincá-la no corpo do inimigo de saída, a coisa estava resolvida, claro. Mas se o adversário não se mostrasse lá muito cooperativo e tratasse de se defender com o escudo, o soldado atirava o pilum neste. Devido ao seu peso e à sua ponta muito aguçada, ele penetrava na maioria dos escudos, que eram de madeira e couro.

E aí o pobre do inimigo se via numa situação muito incômoda, para dizer o mínimo: agora ele tinha uma lança atravessando o seu escudo e não podia se movimentar direito daquela maneira. Principalmente se o romano estivesse seguindo o mau hábito de pisar na base do pilum, diminuindo mais ainda a mobilidade do atacado. Ou este largava as outras armas para tirar a lança dali, ou abandonava o escudo e ficava sem a sua defesa, ou... Qualquer opção era desagradável.

- Era isso o que os gladiadores usavam? Um dia eu vi aquele filme na TV.

O velho bufou.

- Baah! Eles mostram cada besteira nesses filmes! Nesse aí o fulano usa o gládio como arma de arremesso em certo momento, o que é uma idéia das mais estúpidas. O gladium era uma espada curta, característica dos romanos, com fio dos dois lados, que era muito útil mas não era para arremessar.

Eles usavam também uma adaga curta e larga, o pugio, que servia para combates mais de perto. Ou para tarefas menos dignas, como ataques à traição.

Mas vamos continuar com o nosso assunto inicial. Outra palavra que me ocorre é asterisco, aquele sinalzinho que parece uma estrelinha e que a gente vê nos textos para remeter a uma nota de pé de página.

- Outro dia, numa solenidade, o diretor do meu colégio falou no brilho estelar que o futuro traria aos formandos e eu achei que, se ele queria dizer brilho das estrelas, devia ser estrelar. Estou certo?

- Não. O Português vem do Latim, não do Português. Esse estelar vem de stella e não de estrela. Mas você localizou bem a origem.

Senti-me um pouco recuperado no meu orgulho abatido.

- Aquela palavra antiga ster deu, em Anglo-Saxão, steorra, que acabou virando o Inglês star, que é como eles dizem estrela. Em certa época, eles usavam uma moeda onde havia uma pequena estrela desenhada. Por isso eles a chamaram de sterling, o que resultou na Libra Esterlina, que depois passou a ser a moeda do Reino Unido.

- E o Seu Astolfo, nosso vizinho? O nome dele vem daí?

- Astolfo vem do Germânico aust, "leste, oriente" e de ulf, "lobo". Quer dizer "o guerreiro do oriente, o guerreiro corajoso". Nada tem a ver com os astros. Mas há um nome derivado de estrela, que é Astério, e significa brilhante como uma estrela". É bem difícil encontrar um Astério hoje em dia, mas há até um santo com esse nome.

- Puxa, Seu Astolfo, com aquela barriguinha, careca e com bigodinho, sempre de chinelos, quem diria...

- Pois é. Quem vê nome não vê coração, menino. Mas me parece que por hoje chega, que a sua cabeça pode arrebentar. Escute aqui: a sua avó andou fazendo aqueles biscoitos de que gostamos tanto. Passe pela cozinha e roube um pratinho para a gente comer aqui. Mas antes, considere bem se não vai lhe acontecer nenhum desastre caso ela o pegue avançando na lata.

 

 




Edições Anteriores
Edição 57: BANDIDOS 25 / 03 / 2010
Edição 56: 30 / 10 / 2009
Edição 55: UMA TEMPESTADE 22 / 06 / 2009
Edição 54: MODA 25 / 04 / 2009
Edição 53: DOIS 14 / 01 / 2009
Edição 52: GULOSEIMAS 23 / 10 / 2008
Edição 51: CORAÇÃO 01 / 09 / 2008
Edição 50: CATA 03 / 08 / 2008
Edição 49: LINHAS 29 / 06 / 2008
Edição 48: SOM 18 / 05 / 2008
Edição 47: A RODA 14 / 04 / 2008
Edição 46: MAIS INESPERADAS 09 / 03 / 2008
Edição 45: LIGAÇÕES INESPERADAS 01 / 02 / 2008
Edição 44: O NOME DOS DIAS 06 / 01 / 2008
Edição 43: ELOGIOS 21 / 11 / 2007
Edição 42: RIOS 18 / 10 / 2007
Edição 41: VEÍCULOS 2 14 / 09 / 2007
Edição 40: VEÍCULOS - 1 05 / 08 / 2007
Edição 39: FERRAMENTAS II 07 / 07 / 2007
Edição 38: FERRAMENTAS 12 / 06 / 2007
Edição 37: PARENTESCO 15 / 05 / 2007
Edição 36: VIAGENS 19 / 04 / 2007
Edição 35: ESTUDO 13 / 03 / 2007
Edição 34: TUPI 03 / 02 / 2007
Edição 33: MESES DO ANO 05 / 01 / 2007
Edição 32: LIVROS 10 / 12 / 2006
Edição 31: CUMPRIMENTOS 15 / 11 / 2006
Edição 30: ARMAS MODERNAS 30 / 09 / 2006
Edição 29: SANTO CARAMBA II 24 / 08 / 2006
Edição 28: SANTO CARAMBA I 21 / 07 / 2006
Edição 27: ARMAS ANTIGAS 20 / 06 / 2006
Edição 26: SOBRENOMES II 25 / 05 / 2006
Edição 25: SOBRENOMES - I 21 / 04 / 2006
Edição 24: BATERIA 23 / 03 / 2006
Edição 23: NO JARDIM 19 / 02 / 2006
Edição 22: PUXA-SACOS 18 / 01 / 2006
Edição 21: CÍCLOPES 19 / 12 / 2005
Edição 20: PANNE 26 / 11 / 2005
Edição 19: DUENDES, ETC. 04 / 11 / 2005
Edição 18: SPACE SHUTTLE 19 / 10 / 2005
Edição 17: ESTRELAS 27 / 09 / 2005
Edição 16: HUMOR 09 / 09 / 2005
Edição 15: ACAMPAMENTOS 22 / 08 / 2005
Edição 14: ABREVIATURAS 27 / 07 / 2005
Edição 13: ADIVINHANDO 04 / 07 / 2005
Edição 12: GENTE CHATA 13 / 06 / 2005
Edição 11: JOGOS 12 / 05 / 2005
Edição 10: COSMOS 14 / 04 / 2005
Edição 9: BUROCRACIA 18 / 03 / 2005
Edição 8: AS FÉRIAS 10 / 02 / 2005
Edição 7: GREGÁRIO 24 / 01 / 2005
Edição 6: CACHORRO 31 / 12 / 1969
Edição 5: A ROUPA DE FESTA 20 / 12 / 2004
Edição 4: DESASTRE 06 / 12 / 2004
Edição 3: A ANEDOTA 23 / 11 / 2004
Edição 2: A MOCHILA 08 / 11 / 2004
Edição 1: A BÚSSOLA 21 / 10 / 2004