- Então
a senhora é que é a mãe do Humbertinho! Muito prazer,
sou a Tia Odete, professora dele. Ele é o único aluninho que
me convidou para a sua festa de aniversário até hoje.
Devo lhe
dizer que ele é certamente o mais brilhante de todos, um verdadeiro
exemplo de menino que não só não incomoda como colabora
com a sua cansada mestra.
É
sempre ele que me traz um copo dágua quando estou muito atacada, que
se oferece para apagar o quadro-negro, que me conta quem foi que fez as malfeitorias.
Prevejo
um grande futuro para ele. Não duvido que chegue à Presidência.
Não sei de quê, mas vai chegar à Presidência.
Venha
cá, meu querido,
a Tia Odete trouxe uma pequena lembrança para você. É
um bloquinho de anotações com um lápis para você
escrever os nomes dos seus coleguinhas que fizeram coisas ruins e que você
vai me passar depois.
Não
agradeça; total, é só o que uma professora esforçada
pode dar hoje em dia, com os salários baixos que se recebe e... mas
vamos falar de coisas melhores. Certo, vou sentar com as outras senhoras aqui
na sala. Boa tarde, como vão? Bonito aniversário, este.
Hum. Naturalmente
todas vocês sabem de onde veio a palavra aniversário,
não? Como? Verdade que não? Então eu vou ter o prazer
de contar, já que não pode haver ocasião melhor.
Ela vem
do Latim, de anniversaria dies, "dias a serem observados em
especial". E anniversaria vem de annus, "ano",
mais vertere, "virar", ou seja, quando se completava mais
um ano dum acontecimento.
A palavra
annus deu - sim, Joãozinho, meu anjo? - não, a Tia
Odete não chamou você, meu doce; vá continuar a sua brincadeira
com as meninas atrás da porta, que hoje eu não tenho nada que
ver com isso.
Mas, como
eu dizia, essa palavra originou muitas outras em Português, como anais,
inicialmente "fatos lembrados a cada ano", centenário,
"o que tem cem anos", anual, "o que acontece
a cada ano", como, por exemplo, receber uma turma nova de demônios
para cuidar.
Antigamente
se fazia também festa pelo onomástico da pessoa.
Isto vem do Grego onomázein, "nomear, atribuir um nome",
de ónoma, "nome". Fazia-se uma festa no dia do santo
cujo nome a pessoa usava. Note-se que nem sempre este era o dia do nascimento.
Por exemplo,
se alguém quisesse dar uma festa de arromba para mim no dia da minha
santa onomástica, o faria ou no dia dedicado a Santo
Odon, o abade de Cluny, que viveu no Século X ou no dia dedicado ao
Santo Odon que foi bispo de Urgel, na Espanha, no Século XII. É
que Odete é o feminino de Odon, em Francês.
Claro
que alguém só faria isso se achasse que eu tinha algum tipo
de merecimento devido ao fardo que agüento todos os dias sem me queixar.
E já
que falei em festa mais de uma vez, eis também a ocasião
de falarmos sobre a etimologia desta palavrinha tão simpática.
Ela vem do Latim festae, "feriados", que vem de festus,
"festivo, alegre" e que se relaciona tanto com feriae, "feriado"
como com fanus, "templo". As festas religiosas foram, por
muito tempo, uma rara ocasião de as pessoas se encontrarem, em épocas
nas quais a maior distração que aparecia na aldeia era um enforcamento.
Festa
nos deixou também a palavra festão, que nada
tem a ver com "festa grande". Designa uma guirlanda, um ramo de
flores pendente, e veio do Francês feston, que veio do Italiano
festone, "ornamento festivo". Foi muito usado como ornamento
arquitetônico nas épocas em que os prédios não
seguiam o modelo caixa de sapato.
Também
derivou daí festival, de festivalis, "referente
a um feriado religioso".
Espera-se
de uma festa que ela seja alegre, palavra que veio do Latim
alacer, "animado, vivaz". Essa palavra se encontra hoje
muito pouco modificada na linguagem culta: álacre.
Conhecem
aquela poesia que começa com "Álacres saem as andorinhas
do ninho..."? Não? Nem poderiam, pois é uma das modestas
poesias que eu andei fazendo nas minhas raras horas de folga e que vou declamar
agora perante tão distinta platéia, se me permitirem...
Mas como
vocês são gentis em correrem para me oferecer bebidinhas e comidinhas!
Com a boca cheia não vou poder declamar. Fica para depois então.
Este refrigerante
está numa temperatura muito boa. Claro que todas sabem... Não?
Vou contar então. Refrigerante vem do Latim refrigerare,
"refrescar", de re, partícula intensificativa, e
frigo, "frio". Quem me dera ter sempre um refrigério
para a alma quando os filhos das senhoras aqui presentes começam a
aprontar na aulinha!
Mas, como
sempre digo, passemos adiante e vejamos a origem do nome daqueles rapazes
com estranhas vestes que foram contratados para alegrar as crianças.
Palhaço
vem do Italiano pagliaccio, de paglia, "palha",
porque eles usavam roupas acolchoadas com palha para parecerem mais engraçados
e para agüentarem as pancadas que davam uns nos outros.
Um sinônimo
de palhaço que agora anda em desuso é bufão.
Tal palavra vem do Italiano buffare, "debochar, zombar, rir
de alguém", provavelmente com origem onomatopaica a partir do
som buf-, de deixar o ar sair em sinal de desprezo. O verbo bufar
tem a mesma origem.
Mas que
deliciosas empadas! Esta palavrinha vem do Latim panis,
através do Espanhol empanada, nome dado inicialmente a alimentos
fritos sob uma camada de material com farinha.
Mas a
gente sempre tem que se cuidar para não comer descuidadamente uma empada,
não vá se machucar ao morder uma eventual azeitona
no seu interior, palavra que vem do Árabe az-zaitûn,
que queria dizer tanto a oliveira quanto o seu fruto.
Não
sei por quê, mas falar neste salgadinho me trouxe à mente a expressão
cirurgia plástica. Devo explicar que plástica,
no caso, não é porque as pessoas ficam com as caras sem expressão
que nem uma boneca de plástico; essa palavra vem do Latim plasticus,
o mesmo que o Grego plastikos, "capaz de ser moldado",
de plastos, "moldado", de plassein, "moldar".
A idéia é de que as pessoas possam "moldar" seu corpo
conforme seus desejos de beleza. Ih, ih, ih.
O uso
da palavra plástico para designar o material que conhecemos
tão bem, hoje feito de derivados de petróleo, é de 1909,
cunhado por Leo Baekeland, que inventou a baquelita. Eu ainda
conheci os telefones feitos com baquelita; só a parte
que se retirava do gancho para falar era do tamanho e peso de vários
celulares de hoje.
Que maravilha,
estes pasteizinhos! Estão uma delícia; saibam
que o nome deles vem do Italiano pasta, "massa", que vem
do Latim pasta, "massa" também. Mais remotamente,
veio do Grego pasta, "mistura salgada de alimentos", de
pastos, que queria dizer "polvilhado, salgado", de passein,
"espalhar".
Nem precisam
me perguntar, que já explico: o pastel que muitas
pessoas usam para fazer quadros não é de comer mas tem relação
com estes aqui no meu prato, sim.
Seu nome
vem do Italiano pastello, "material reduzido a uma pasta",
e foi a palavra escolhida para designar a mistura de certas ceras com pigmentos
que era usada para colorir. Aliás, ainda é.
Quem se
dedica à antiquada atividade de ler, coisa tão rara hoje, deve
saber o que é um pastiche. Atualmente essa palavra
designa um escrito calcado num outro, como quando se faz uma história
com o Sherlock Holmes como detetive.
Há
um tempo, essa palavra significava "escrito feito com fragmentos de outros".
Seja como for, a palavra vem do Francês pastiche, que vem do
Italiano pasticcio, que vem do Latim pasticium, "feito
de massa", isto é, juntando-se punhados de materiais e amassando
para obter algo diferente.
Que interessante,
olhem: algum capetinha
se dedicou a sacudir as latas de refrigerante e cada vez que alguém
abre uma, é um banho ao redor! Parecem fontes!
E aquele
grupo ali adiante começou uma guerra com docinhos, que gracinhas! Pensando
bem, esses brigadeiros e branquinhos parecem ideais para se atirar. E os sanduichinhos
redondos, que deram tanto trabalho para fazer, estão servindo como
aquelas armas de arremesso dos japoneses, as tais estrelas ninja. Como eles
se divertem!
Ai, mas
que beleza! É sempre bom a gente ver a alegria pura e espontânea
das crianças, tão ativas...
Olha,
olha! Estão correndo atrás das meninas com o bolo. Eles andaram
vendo filmes de pastelão, os queridinhos. Só acho que o ideal
era as velas não estarem acesas.
Chiii!
Puseram a torta fria no sofá e fizeram o gordinho sentar em cima. Mas
ele não se rendeu: está tirando pedaços esmagados do
traseiro e jogando nos outros. Como se divertem! Como é boa a infância!
Como é bom não ter nada que ver com isso!
Olhem
o Joãozinho e o Sidneizinho levando aquelas duas meninas para o banheiro.
Decerto vão ajudá-las a limpar alguma manchinha nas roupas.
E aquelas
pernas saindo de trás do sofá? Ah, é o meu bom Soneca
que está fazendo o que mais lhe agrada: sesteando. Esse é outro
que não incomoda; passa dormindo a aulinha inteira.
E ali
está passando o Artur, agarrado numa bandeja de doces, com as bochechas
estufadas, dizendo "É meu" É meu!"
Parece
que as outras estão ocupadas tentando controlar os seus filhos, de
modo que ficamos só nós duas para conversar, minha senhora.
Admiro a sua tranqüiidade.
Ah, sim,
não é tanto que a senhora seja calma como porque a sua perna
está engessada até em cima. Foi na ginástica, é?
Felizmente isso passa com uma boa imobilização.
Aproveitando
que a senhora não pode sair daqui, vou contar-lhe a origem de algumas
coisas que as crianças estão fazendo, tal como imundície.
Esta palavra vem do Latim i, "sem", mais mundus,
"limpo". O que estava imundus não estava limpo,
que nem o que está acontecendo com esta sala.
E sujeira
vem do Latim succidus, "úmido, gorduroso, sujo".
É uma palavra aparentada com sucus, "extrato, suco".Se
pudermos considerar o refrigerante como um suco, ele está umedecendo
quase tudo o que a gente vê aqui.
Vai ser
bem difícil tirar as manchas dos estofados, palavra
essa que vem do Latim macula, "nódoa, erro". Acho
que o erro mesmo foi juntar essas crianças. Eu, que as agüento
todos os dias úteis, sei que isso é perigoso.
Acho que
vai ser difícil essas mães conseguirem algo com as crianças
sem que se chame uma força de elite.
Ué,
já terminou a festa? Deve ser coisa moderna. As de antigamente duravam
mais de meia hora. Permita-me despedir-me da dona da casa... Como? Ela saiu
porta afora, aos berros, coberta de merengue e pão de sanduíche?
Bem, deixem-lhe minhas recomendações.
Coisa
curiosa, esta época moderna e seus costumes. Acho que vou ter que me
reciclar um pouco. Espero que me convidem para outras festas, pois tenho certeza
de que abrilhantei esta.