Parem!
Parem! Ai, São Pedro, porque você tinha que fazer chover logo
hoje? Por que não no fim de semana? Agora estes capetinhas não
podem sair para o pátio no recreio e eu fico com o caos no colo. São
Pero Botelho, dai-me um relho!
Quietos!
Robertinho, sente! Joãozinho, não abaixe as calças! Pare
de olhar com esses olhos arregalados, Joana Beatriz! Zorzinho, pare de escrever,
Valesca pare de falar, todos, se possível parem de respirar!
Não
deu? Então vamos fazer o seguinte: vamos sentar e falar sobre comida,
já que está na hora de comer a merenda mesmo. Você sabia,
Leonorzinha, que a palavra arroz, que não pode faltar
em nenhuma mesa, vem do Grego oryza, arroz mesmo?
E essa
palavra vem do Sânscrito vrihi, com o mesmo significado. Por
que essa cara de quem vai vomitar? Ah, você não gosta de
arroz? Nem de um bom risoto, que vem do Italiano
riso?
Hum, eu
acho que os seus pais vão ter que lhe providenciar uma terapia comportamental.
Vou falar com eles depois.
Mas então
vamos falar daquele companheiro constante do arroz, o feijão.
Este nome vem do Latim phaseolus e do Grego phaséolos,
ambos significando feijão mesmo.
Hein?
Não, Ledinha, os guerreiros gregos não eram fortes porque comiam
feijão antes de guerrear, não. Não, meu bem, tampouco
foram eles que inventaram a feijoada. Quem a inventou não sei, mas
deve ter sido aqui no Brasil mesmo.
Falando
em grãos, ocorre-me o milho, cujo nome vem do Latim
milium, provavelmente relacionado ao numeral "mil", pela
quantidade de grãos. Se vocês contarem isto em casa, seus pais,
que com certeza são muito cultos vão protestar, dizendo que
em Roma não havia milho, o qual foi levado da América
para a Europa.
Se isto
acontecer, expliquem que os romanos aplicavam esse nome a uma outra gramínea,
originária da Índia, que os espanhóis hoje chamam de
trigo candeal. A palavra milho acabou sendo
usada depois para a Zea mays, que é o nome científico
do milho que veio do Novo Mundo.
Também
temos o trigo, do qual são feitos esses sanduichinhos
tão bons que o Soneca e o Artur estão comendo - não,
queridos, não era essa a idéia mas, bem, se vocês insistem,
não vou fazer desfeita, aceito, sim - esperem que eu engula, é
feio falar de boca cheia. Como eu dizia, essa palavra vem do Latim triticum.
Humm,
muito bons. Vou aceitar mais unzinho...
Ah, antes
que me esqueça: a ervilha vem do Latim ervilla,
diminutivo de ervum, uma planta parecida com a atual ervilha,
que serve como forragem, isto é, alimento para o gado.
Sim, Valesquinha?
Não, não creio que a vizinha de vocês coma forragem. Está
bem, a sua mãe pode dizer que ela é uma vaca, mas ela com certeza
quer dizer outra coisa. Será que não quis dizer que "Ela
comprou uma faca"? Ou "Ordenhou uma vaca"? Ou "Precisou
de uma maca"? Com certeza não? Bem, vamos mudar de assunto. De
qualquer forma, não repita isso para a vizinha, por favor.
Um prato
que costuma acompanhar a comida é a salada. Este nomezinho
vem do Italiano insalata, "salgada", do Latim insalare,
de in-, "em", mais salare, "salgar".
Em Espanhol a palavra mudou menos que no nosso idioma e se diz ensalada.
Tá
certo, pessoal, a salada de frutas não é salgada.
A semelhança não é pelo tempero, é pela mistura
de diversos elementos.
Essa palavra
pode ser aplicada também para qualquer conjunto desordenado, como na
frase "As crianças fizeram tamanha salada na aula que a pobre
professora morreu de desgosto na frente delas e depois do enterro veio puxar
os pés delas todas as noites". Explicar melhor? Ora bem, foi apenas
uma frase que me ocorreu. Vamos adiante.
Também
podemos comer massa. Esta palavra era massa
em Latim, e maza em Grego, onde queria dizer "conjunto, o todo,
massa". Sim, Valzinha, amasso vem daí. Como,
o que é "um bom amasso"? Aaah... imagino que deva ser o que
o fabricante de talharim faz ao preparar o seu produto, não?
Bem,
mesmo que você não acredite em mim, fique quieta e não
diga nada à Lúcia aí do seu lado, que quem quer estudar
Teologia no futuro não deve aprender certas coisas.
Também
podemos comer ovo em diversas formas. Esta palavra tão
curtinha vem do Latim ovum - não se mexa, Joãozinho,
não diga nada, nem sequer abra a boca! - que era oon em Grego,
que veio do Indo-Europeu owyo.
Do ovo
podemos fazer, por exemplo, uma omelete. Esta palavrinha
vem do Francês omelette, que vem de alemette, que
vem de alemelle, "lâmina de faca ou de espada", que
vem de la lemelle, "a lâmina", que vem do Latim lamella,
"prato delgado e pequeno", que vem de lamina, "camada,
prato".
Pode-se
comer ovos Benedict também. Eles são uma entrada
com pão, molho e presunto, inventados na Nova Iorque de 1920 para o
casal LeGrand Benedict, que pediu alguma coisa fora do cardápio
de sempre. Pois na hora foi inventado esse prato. Cozinheiro criativo, esse.
Falando
em molho, este vem da palavra "molhar", pois é
isso que ele faz quando é acrescentado a algum prato. E esse verbo
vem do Latim molliare, "molhar", mais exatamente "tornar
mole por contato com a água".
Também
podemos comer um bom bife. Tal nome vem do Inglês beef,
que veio do Francês boeuf, "boi". E que,
por sua vez, veio do Latim bos, com o mesmo significado,
relacionado com o Grego bous, idem.
No fim
da refeição muitas vezes comemos frutas. Esta
palavra é do Latim fructus, "produto, proveito,
fruto" e veio de frug-, raíz do verbo frui,
"usar, aproveitar, desfrutar".
Não
se esqueçam que, depois de uma experiência trágica de
fazer merenda apenas com frutas, eu proibi terminantemente que esse tipo de
alimento seja trazido para cá.
Ainda
no outro dia encontrei um resultado daquela infeliz aventura, uma múmia
de banana dentro da minha bolsa, quando fui tirar uma lembrancinha para o
aniversário de uma amiga.
Imaginem
que vexame! Tive que dizer que era uma brincadeirinha e todas ficaram pensando
que eu andava saindo com aquele alemão que anda por aí enlouquecendo
as senhoras, o Seu Alzheimer.
Em vez
de frutas, podemos comer sobremesas várias. Esta palavra
se relaciona com o que está "sobre a mesa".
Sei, Ledinha,
que o resto da refeição também esteve "sobre a mesa",
mas os caminhos que geram as palavras às vezes são meio misteriosos.
Em Inglês ela se chama dessert, porque é apresentada
ao se retirar o material que a antecedeu. Esse é o momento de "retirar
o serviço", ou desservire, em Latim.
Quem gosta
de mousse deve saber que essa palavra é francesa e vem do
verbo mousser, "espumar, agitar". Ela é uma espécie
de espuma de delícias que a gente come e... desculpem, a Tia Odete
se babou. Ou, para ser mais científica, teve um surto agudo de sialorréia.
Pode-se
comer um pudim, do Francês boudin, que parece
vir do Latim botellinus, diminutivo de botellus, "salsicha".
Calma, Mariazinha, já explico. O significado atual veio de alimentos
feitos dentro de tripa ou sacos, como é o caso das salsichas, e que
incham, um hábito que os pudins ostentam.
Em vez
do pudim, pode-se apresentar uma torta. Esta
vem do latim torta, "pão redondo, bolo achatado".
Uma torta pode ser de diversos tipos, como a torta "afrodescendente
portadora de sofrimento psíquico", antigamente conhecida por "Nega
Maluca".
Bem, crianças,
terminou o recreio. Vamos guardar os restos das merendinhas. Depois dos sanduíches
que provei, acho que vou fazer a campanha "Traga a Merenda para Professora".
Talvez assim eu engorde um pouco e vocês consigam algum desconto no
tempo que vão passar no Purgatório.
Até
amanhã.