Noite
de inverno em determinado bairro da cidade grande. O vento passa rápido,
contando sem parar suas histórias de fantasmas. Ele deixa fria a pele
de pessoas e palavras, arrepia suas mentes, afugenta-as das ruas.
Uma rajada
mais forte arranca um pequeno cartaz de um poste de madeira meio inclinado.
Ali está escrito:
X-8, AGORA
COM TERAPIA DE FAMÍLIA.
PERGUNTAR
NO BAR DO GARCIA
É
um aviso misterioso.
Mas não cai em olhos cegos: uma mão o pega no meio da sujeira
da calçada e o mostra ao resto do grupo que parou na calçada.
São cinco vultos que andam devagar, como se tivessem pouca alegria
em viver. Todos olham o papel com atenção e fazem que sim com
a cabeça.
Caminham
mais uma quadra e entram no Bar do Garcia, que tresanda a gordura de hamburger
de origem misteriosa. Tem um aspecto sujo, mas pelo menos não há
moscas voando por ali. Quando a fritura começa, elas caem durinhas
no chão.
Detêm-se
junto ao comprido balcão. Garcia, gordo, barba por fazer, cara de poucos
amigos, se dirige a eles e os encara, sem dizer nada, uma interrogação
nos olhos porcinos.
Ele ostenta
um pesado e seboso
bastão de madeira de lei na mão, que é para deixar tudo
bem claro. Se forem ladrões
ou fiscais, não são bem-vindos ali.
Mas Garcia
se sente melhor quando termina de ler o cartaz que o líder do grupo
larga sobre o balcão, sem dizer nada. Leva uns minutos, é verdade,
mas lê tudinho.
Hoje ele
não está para muita conversa. Retira das profundezas de um bolso
do avental manchado de café, cerveja e antigas e indizíveis
gorduras, um lápis bem curto e de ponta bem romba, pega o cartaz de
sobre o balcão e rosna:
- Nomes.
Cada um
dos que se encostam ao balcão dá o seu nome, que ele desenha
com muito trabalho nas costas do papel.
Ele se
vira para um telefone preto, dos antigos de baquelita e fio encordoado, e
faz uma ligação. O grupo não consegue ouvir nada, pois
ele abafa a boca junto ao telefone com o pano que usa para secar os copos
e a testa. Após uns grunhidos indistinguíveis, ele se vira e
diz:
- Amanhã.
Vinte horas em ponto. Naquele edifício em frente. Terceiro andar. Procurem
a placa. O preço é... - e diz uma exorbitância.
As palavras
falam entre si rapidamente e a que comanda assente com a cabeça para
Garcia, que lança um curto grunhido ao telefone. Elas viram as costas
e saem, no seu andar pesado.
Nesse
momento, X-8, o
detetive etimológico, desliga o seu telefone, vai à janela e
olha para o outro lado da rua.
Garcia,
que de sonso só tem a cara, já estava à porta do bar,
de olho na janela do detetive. Quando ele enxerga X-8, faz um gesto esfregando
a borda de uma mão sobre a palma da outra e relanceando um olhar para
o bastão de madeira que está seguro pela axila.
Maravilhas
da comunicação interpessoal não falada! Em dois ou três
segundos, Garcia, que foi expulso do colégio antes de completar o segundo
ano primário, disse, sem emitir um som:
- Ô
meu, não se esqueça que temos um convênio em que eu recebo
um percentual de cada palavra que envio para a tal de Terapia de Família
que você inventou e que, se eu não for pago direitinho o meu
cacete aqui presente vai fazer uma farra das grossas nessa sua cabeça
pretensiosa! Tá bem avisado!
A saída
airada de X-8 da janela expressou:
- Não
sou pessoa de faltar a meus compromissos, mesmo que sejam com um porco sujo
e inculto como você.
De volta
ao seu escritório cuidadosamente desmazelado, X-8 olha o nome de cada
membro da família que marcou consulta. São eles: Croquete;
Croquis; Croque; Crocante;
Escroque.
Muito
bem. É o primeiro grupo familiar desde que ele teve a brilhante idéia.
Afinal, ultimamente ele tem atendido mais de uma palavra de uma vez. Está
na hora de fazer uma mousse com esses limões! Vamos agregar
valor aos serviços e cobrar mais!
Na noite
seguinte, uma cena familiar: as palavras estão sentadas sobre um incômodo
banco de madeira e à sua frente se encontra o grande detetive.
As clientes
só enxergam uma capa de gabardine cor de areia com a gola levantada
e um chapéu marrom. O rosto da pessoa ali dentro está oculto
nas sombras. Sombras, aliás, que predominam naquele escritório
saído dos anos 50, empoeirado e descuidado como convém àquele
tipo de profissional.
A voz
dele é calma, fria, desprovida de sentimentos, quando começa
a falar:
- Muito
bem. Começando por Croquete: tal palavra vem do Francês
croquette, derivada do verbo croquer, que significa "partir,
romper fazendo ruído". Como se vê, trata-se de uma palavra
onomatopaica, ou seja, ela imita o ruído que a originou.
Quanto
a Croqui, seu nome vem do Francês croquis,
que também vem de croquer.
- Mas
como foi que meu sentido passou de um tipo de bolinho de carne para "desenho
rápido, esboço?" - perguntou a palavra, intrigada.
- Foi
porque o sentido de "desenhar rapidamente" foi comparado a "comer
rapidamente". Coisa de franceses, que pensam muito em comida.
Continuando,
Crocante ali evidentemente também vem de croquer.
Todos sabem como é bom comer algo quentinho e com uma casca crocante.
Agora,
Croque é uma palavra que tem um certo trabalho, não?
- o detetive olhou com simpatia (mas, de fora, não deu para notar)
para a palavra.
- Pois
é. Tenho que me desdobrar para atender a mais de um sentido. Por sorte
para mim, não sou exigida com muita freqüência, não.
- Isso
mesmo. Um dos seus sentidos é o de "gancho, instrumento com curva
na extremidade". Os marinheiros sempre têm a bordo um croque
para retirar alguma coisa dágua. Vem do Francês croc,
que a recebeu do Norueguês Antigo krokr, "gancho, canto".
- E meu
outro significado, tem a mesma origem?
- Não.
No sentido de "golpe dado na cabeça", vem de "casco",
usado aqui no lugar de "crânio".
O detetive
se virou para Escroque, que estava meio de banda, aparentando
certo nervosismo.
- E você,
a sua origem é o Francês scroc, do Italiano scrocco,
"artimanha, calote, exploração", do verbo scroccare,
"obter à custa alheia, enganar".
- Quer
dizer que ele não é nosso parente? - perguntou Croquete.
Imaginando
o que poderia acontecer (não era à toa que se tinha dado muito
bem em Psicologia das Palavras I e II na Faculdade), X-8 tentou desviar:
- Ora,
não somos todos irmãos, no fundo? Não descende a humanidade
inteira de um animal marinho que um dia resolveu andar pela praia para ver
como era? Não vêm todas as palavras do primeiro grunhido que
soou nas cavernas, quando um primata descobriu as suas cordas vocais, talvez
ao tropeçar nelas?
Mudando
de assunto, preciso
acrescentar que vocês não trouxeram uns primos, como, por exemplo,
crochê. O nome deste trabalho com linha vem do instrumento
usado nele, uma haste com ganchinho na ponta, do mesmo krokr usado
um dia pelos Vikings.
Existe
outro parente de vocês que nem sei se está vivo, e que é
croquet (aportuguesado para croqué),
o esporte jogado por Alice quando foi ao País das Maravilhas. Normalmente
ele é jogado com um bastão curvo - daí o nome - mas lá
se jogava com flamingos e...
Mas as
sementes da confusão já estavam lançadas e germinaram
com extrema rapidez , apesar da tentativa de X-8 de distrair as clientes.
Falou Crocante para Escroque:
- E você
disse que era parente! Salafrário!
Acrescentou
Croqui:
- Ele
estava querendo que nós investíssemos toda a nossa grana ganha
honestamente na tal "Arapuk", a empresa que você ia instalar
para fazer a fortuna da família, é?
Croque
se levantou e avançou para a atemorizada palavra:
- Agora
você vai me sentir de perto!
Aproveitando
a sua posição no banco de madeira, Escroque fugiu
às carreiras, levantando poeira e esparramando o lixo dos corredores
para o lado.
- Calma,
pessoal, calma! - pediu X-8. Essas coisas acontecem nas melhores famílias.
Ninguém está a salvo - e acrescentou uma porção
de clichês pertinentes.
Conversou
um pouco mais com as palavras, acalmou-as, contou algumas piadas, ouviu pacientemente
as queixas delas contra Escroque.
Quando
percebeu que elas estavam mais tranqüilas, cobrou os seus honorários
(a parte da foragida elas tiveram que pagar, pois segundo o detetive essa
era a obrigação legal) e se despediu.
- Muito
obrigado, voltem quando quiserem. Ou melhor, mandem as suas amigas. Pagando
bem, sempre nos convém.
Cinematograficamente,
antes que elas saíssem, ele perguntou:
- E aquele
outro parente de vocês, o Croquezz, como vai?
As palavras
o olharam e uma disse:
- O senhor
conhece essa figura? Não é nosso parente, não, embora
a gente o veja de vez em quando pelo bairro.
O coração
de X-8 se acelerou. Finalmente ele obtinha uma pista fresca daquele bandido!
Como quem não quer nada, indagou:
- Onde
é que vocês o têm visto?
- Da última
vez ele estava no Clube Cultural, puxando conversa com as palavras por lá.
O senhor quer mandar algum recado?
- Não,
não. É que eu estou em dívida com ele e quero fazer-lhe
uma surpresa. Não lhe digam nada se o virem, não vão
estragar nossa alegria!
- Certo,
fique tranqüilo. Um pedido seu é uma ordem para nós, disse
Croquete.
As palavras
saíram. O detetive ficou sozinho, iluminado apenas pelo cartaz de fora
da janela, encostado à parede. Fazia mil planos para capturar aquele
criminoso.
Mas só
vamos saber deles mais adiante.