Edição:  47
14 / 04 / 2008

 

 

 

X-8 DETETIVE ETIMOLÓGICO - LIDA COM O CAMPO

Hoje o bravo detetive etimológico, aquele profissional certificado por si mesmo, aquele que faz tudo pelas suas palavras clientes contanto que elas paguem, está esperando uma palavra que marcou com antecipação sua consulta.

Estas são suas ocasiões preferidas: assim ele tem tempo de fazer uma boa pesquisa e impressionar a consulente, parecendo que sabe tudinho de cor. Se elas quiserem por escrito, vão ter que pagar mais, lógico.

 

Ela está à sua frente, desconfiada, mas logo se rende à conversa segura do detetive enfronhado numa enorme gabardine, com um chapéu que impede a visão do seu rosto.

- Muito bem, Campo. Você é uma palavra de grande antigüidade, com numerosas aplicações em diversos idiomas.

Seu início se calcula ser o Indo-Europeu kamp-, "dobrar". Ainda nesse idioma não-atestado, kampos quereria dizer "canto de terreno ou pequena baía arredondada".

Foi no Latim que uma descendente das anteriores começou sua prolífica carreira. Neste idioma, primeiro se dizia campus para "área cercada", mesmo que fosse por obstáculos naturais, como bosques ou colinas.

Mais adiante, campus passou a designar uma área plana, adequada para plantio. Por extensão, passou a designar os hábitos e modo de viver de pessoas que se dedicavam à agricultura e à criação, em oposição aos que viviam na urbs, na cidade.

Apesar das cenas bucólicas que você traz ao pensamento, há termos militares que são seus derivados.

Por exemplo, campeão. Antes de ser "o vencedor" numa disputa qualquer, essa palavra designava o guerreiro que lutava no campo, em lugar aberto e exposto, não um bandido que atacava à traição nos bosques.

Uma campanha militar recebeu esse nome porque os enfrentamentos entre exércitos costumavam ser feitos em campo aberto. E acho que eles tinham razão; como se não bastasse os soldados enfrentarem outros que os queriam matar, ainda iam lutar em terreno irregular, subindo e descendo morros?

Até há poucos séculos, os exércitos europeus passavam o inverno aquartelados e iam fazer suas campanhas no verão, que lutar no frio não estava com nada.

Aliás, em épocas muito mais antigas há mais de 2000 anos, os exércitos na região da Babilônia, antes de se defrontarem, chegavam ao extremo de aplanar o chão entre eles previamente à batalha.

Do Latim campania nos veio também a campanha com o significado de "terreno aberto, planície".

Uma missa campal é uma cerimônia feita em lugar aberto, fora da igreja.

E daí também, por estranho que pareça, campanário, "torre de sinos numa igreja". Em nosso idioma usamos pouco a palavra campana para "sino", mas ela resiste nos dicionários. Em Espanhol ela é amplamente usada.

Para designar esse instrumento que se usa para conclamar os fiéis à missa, a palavra veio do Latim vasa campana, “"vasos de bronze feitos na região da Campania", que recebeu esse nome justamente por ser plana.

Antes que me esqueça, devo registrar que campainha é um diminutivo em pleno uso de campana.

E campânula é uma palavra que designa um objeto de forma de sino. Pode ser de vidro, como uma manga de lampião, ou pode designar a forma de um tipo de flor, por exemplo.

Naturalmente que acampar, "estabelecer-se temporariamente fora de prédios" vem de campo. E campesino, "habitante do campo", também.

Em certos lugares do país, se usa a palavra campear para "procurar". Esse sentido se origina da busca de animais desgarrados no campo.

Em outros pontos, designa-se uma jaqueta curta como campeira, pois se trata de uma jaqueta, abrigo curto para o tórax, peça de roupa que não prejudica o ato de montar para percorrer o campo.

Outro uso pacífico de campus é para designar a área de uma universidade; isso começou em Princeton, em 1774.

Entre as palavras estrangeiras suas parentas que estão estabelecidas entre nós, temos champagne, o vinho espumante bem conhecido, feito na região da França que atende por esse nome.

Também nesse caso está o conhecido champignon, derivado do Latim campaniolus, o que indicava ser ele colhido nos campos.

E, entre usos beligerantes e outros, essa é a sua história, prezada cliente.

Não se esqueça de passar às suas amigas desejosas de saber suas origens o meu cartãozinho; até logo.

 

 




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