O
Detetive
Etimológico X-8 está redecorando sozinho o seu
escritório.
Naturalmente está com a gabardine cor de areia de sempre, com a
gola
levantada e o chapéu desabado que o caracterizam.
Como
concessão
a este tipo de trabalho braçal, que pode implicar em derramar
tinta,
cola e outras coisas que sujem os sapatos, ele está com as
calças
enroladas até os joelhos e usa uns horrorosos chinelos de
plástico.
Não
se pode dizer que eles adicionem alguma coisa ao seu charme mas, enfim,
ninguém
está vendo.
Mantém-se
distraído, assobiando um trecho da Sinfonia nº 39 de Mozart
e
mudando de lugar as pequenas teias de aranha falsas que se situam em
alguns
dos cantos do escritório. Depois ele vai mudar algumas das
rachaduras
autoadesivas, adicionar mais um pouco de poeira de
decoração
sobre os móveis...
Subitamente,
a porta de entrada faz o tréc do abrir da maçaneta e o
nhéééc
das dobradiças rangendo ao se abrirem devagar.
Diachos!
Ele se esquecera de trancar a porta! Como é que ele vai atender
uma
possível cliente neste estado?
Com
a
velocidade de raciocínio que o caracteriza, ele se atira sentado
na
cadeira atrás da grande escrivaninha. Infelizmente, ao fazer
isso,
enfia com força um pé no cesto de lixo que ele havia
tirado
do lugar, conseguindo entalar o chinelo no fundo. Mas pelo menos ele
já
está com os pés fora de vista.
Ao
olhar
para a porta, ele vê que um vulto muito grande está
terminando
de fechar a porta, de costas para ele. Quando o vulto se vira, dá
para
ver quem é: Monstro.
A
palavra
se aproxima da mesa, senta-se na cadeira meio guenza e fala:
-
Procuro
um detetive especializado em problemas com palavras, é
aqui?
-
Às
suas ordens, diz X-8, cujos anos de profissão o deixaram com
enorme
sangue frio, pronto para enfrentar qualquer tipo de palavras.
-
Estou
com vontade de fazer a minha árvore genealógica. O senhor
sabe,
está muito na moda, o pessoal lá do serviço fez e
eu
gostaria de ter mais assunto para conversação com as
outras
palavras...
-
Sei.
Além disso, você tem muitas dúvidas sobre os seus
parentes,
sente-se um pouco só e gostaria de saber mais sobre a sua
família,
não é? - disse o grande detetive, usando o conhecimento
que
tinha acumulado com o trato de tantas palavras ao longo de tantos
anos.
-
Minha
família? Não, não estou nem aí. Não
tenho
especial interesse, não. O que eu quero mesmo é ter um
albunzinho
para mostrar para o pessoal, quem sabe um escudinho de nobreza... Na
verdade,
quero é decoração, sabe? Algo que possa deixar a
turma
com inveja.
X-8
praguejou
internamente. Hoje não era o seu dia. Aquele pé
torturantemente
preso no cesto de lixo, e ter dado um fora destes ao querer
impressionar!
Mas trabalho é trabalho; aliás, principalmente, dinheiro
é
dinheiro.
- O
meu
trabalho é especializadíssimo e muito perigoso. Por isso,
meus
honorários são altos. Até, na verdade, nem
são
tão altos, mas as taxas, os encargos, mais os impostos, o suborno
aos
bibliotecários... Isso é o que mais pesa, na realidade.
É
totalmente injusto, taxarem assim um artigo de primeira necessidade, mas
enquanto
eu não conseguir fazer lobby no Congresso...
Olhe
aqui
este folheto com meu currículo, a lista de preços e o meu
endereço.
Se as condições lhe servirem, farei o trabalho e ligarei
em
algumas semanas para entregar o resultado.
-
Tudo
bem, Detetive. Mas, mesmo que eu tenha que dar um extrinha, não
sai
um escudo de nobreza aí, mesmo uma coisinha assim simples,
só
com uns dois ou três séculos? Um barão nomeado por
D.
Pedro II que seja...
A
voz
do impoluto detetive saiu fria de dentro das sombras que o
escondiam:
- Eu
só
trabalho com a verdade, Sr. Monstro. Esta é uma
das
condições da minha atividade. Se não estiver bem
para
o Sr....
-
Não,
tudo bem, eu só pensei... Não vou insistir, o senhor
é
que sabe o que fazer.
-
Certo.
Então vamos acertar agora o adiantamento. Estará bem se o
senhor
deixar...
E
passaram a discutir as condições de pagamento.
Depois
que Monstro saiu, o detetive se apressou a tirar o
pé
entalado da cesta de lixo e resmungou:
-
Escudos!
Esses yuppies pensam que podem comprar tudo. Mas não comigo.
Lembrou-se
das palavras finais da apresentação do Armorial Lusitano,
o
respeitadíssimo livro de Heráldica portuguesa, ao dizerem
que
o simples surgimento de um escudo com o sobrenome de alguém
"aos
mais rigorosos não pode contentar, porquanto nem o tempo nem um
documento
oficial convertem a mentira em verdade".
Completados
os resmungos, ao trabalho.
Como
sempre,
pegou seus livros e pesquisou em vários volumes; fez algumas
anotações
à mão. Dali a quinze minutos, satisfeito, começou a
batucar
na sua máquina de escrever antiga.
Ele
era
um sujeito moderno. Usava muito bem o computador, até porque
muitas
vezes precisava recorrer à Internet como fonte de
informações.
Por isso, não gostava de digitar naquela monstruosidade do
século
passado, que exigia esforço para imprimir uma letra, não
permitia
correções, era barulhenta, se sacudia toda a cada
movimento
de tecla e só tinha uma fonte.
Mas
o
que fazer? Todos temos que ser um pouco atores, pensava ele. Como
é
que uma pessoa vem consultar num lugar sórdido destes e vai
receber
uma coisinha escrita toda no capricho, sem um errinho, com as margens
perfeitas,
as letras impecavelmente alinhadas? Isso estragaria a
sensação
de estar vivendo num filme policial da década de 40 ou 50, que
era
o maior charme de consultar com tão famoso detetive
etimológico.
Enfim,
terminou o seu documento. Revisou-o para ver se não estava limpo
demais:
MONSTRO
Em
Latim,
o verbo monstrare significava "indicar, apontar,
denunciar,
aconselhar".
Monstrator
era "aquele que orienta, ensina, propagador".
Monstratus,
como
adjetivo,
queria dizer "distinto, assinalado".
O
substantivo
monstrum significava "prodígio, mau
presságio,
aberração". Tudo indica que tenha vindo de
monere,
"avisar, advertir"
Dentre
esses
significados, acabou-se fixando o de "bizarro, aberrante, fora do
natural",
há vários séculos (por exemplo, em Inglês
desde
cerca do ano 1300).
Com o
tempo,
a palavra passou a ser aplicada a uma pessoa muito cruel, bem como a
algo
de tamanho desmedido.
Palavras
relacionadas em nosso idioma são:
Mostrar:
"apontar, chamar a atenção".
Demonstrar:
"explicar, provar", o que se consegue fazer mostrando
dados,
fatos, processos.
Premonição:
"apontar, mostrar antes de que aconteça".
Esta
palavra
logo nos faz pensar em fatos sobrenaturais e coisas do estilo, mas
podemos
ter a premonição de numerosos fatos apenas com a
intervenção
do senso comum: se Fulano não estudar, não vai passar de
ano;
se Beltrano tomar uma bebedeira hoje, amanhã vai se sentir mal;
se
eu não obedecer aos sinais de trânsito, vou acabar batendo
o
meu carro.
Monumento:
vem de monstrum, tanto pelo fato de ser algo feito para todos
verem
como, muitas vezes, pelo seu tamanho.
Monstrengo:
"ser anormal, apresentando deformidades". Usa o sufixo
-engo,
de conotação pejorativa.
Há
palavras de uso exclusivamente culto, como
monstrívoro,
"aquele que come monstros" (de monstrum mais o sufixo
-voro,
que indica "comer"). Para cumprir tão estranha
atividade
, só podemos imaginar um monstro maior e mais monstruoso que os
outros.
Entre
estas
está também monstríparo, "o
que
dá à luz monstros", com o sufixo -paro,
"o
que dá à luz". Arranjaram nome até para a
mãe
do mostrinho.
Como
o
famoso detetive tinha antipatizado com aquela palavra arrivista,
preferiu
não fazer a costumeira entrega do documento no escritório.
Semanas
depois da entrevista, ligou para Monstro:
-
Quem
fala?
-
Monstro.
-
Preste
atenção, pois só vou dizer uma vez: se quiser
receber
sua encomenda etimológica, compareça à praça
de
alimentação do Shopping tal, amanhã. Às
quinze
e trinta e três, esteja na sorveteria Melambuzo, comendo um
sorvete
de maracujá com cobertura de chocolate. Para maiores garantias de
reconhecimento,
leve junto e coloque sobre a mesa uma melancia rajada grande, bem
madura.
Coloque o restante do dinheiro num envelope pardo lacrado e deixe-o
debaixo
da melancia. Nem sonhe com colocar dinheiro a menos; nós podemos
encontrá-lo
facilmente. Ao sair, leve a melancia segurando-a sobre o ombro
esquerdo.
-
S-sim
senhor, certo.
A
ligação
foi cortada e a palavra correu a anotar as instruções,
fascinada.
Palavras
são assim: geralmente ingênuas, deixam-se manobrar com
facilidade.
Começou a pensar em quais colegas iria chamar para que se
dispusessem
discretamente nas mesas ao redor para poderem ver aquela entrega
tão
dramática, quando o telefone tocou de novo:
-
Sim?
- disse Monstro.
A
voz
fria e ameaçadora do detetive soou no receptor:
-
Nada
disso. Se houver algum conhecido seu por perto, esfaqueio a melancia. -
e
desligou.
Monstro
embatucou.
Como é que X-8 poderia saber da sua idéia? Aquele sujeito
era
um feiticeiro!
Na
cabeça
da palavra giravam as diversas sensações que o telefonema
levantara:
"Nós
podemos encontrá-lo facilmente" - será que o
detetive
comandava um bando? Como é que ele fazia para saber os
pensamentos
mais secretos de uma palavra, e à distância? Com tamanha
frieza,
ele era bem capaz de esfaquear mortalmente uma melancia em pleno
Shopping
e escapar ileso (no fundo de sua mente, sem se manifestar
conscientemente,
borboleteava algo mais: e daí que a melancia seja
esfaqueada?).
No
dia
seguinte, Monstro estava no lugar certo, na hora certa,
comendo
obedientemente sorvete de maracujá, que ele detestava, com
cobertura
de chocolate, que ele abominava. As coisas que ele fazia para aparecer!
E
as pessoas e palavras passavam por ali e olhavam para aquela enorme
melancia
que estava sobre a mesa, ao lado da taça de sorvete. Chato,
aquilo.
Aquele
pintinho amarelo de corda que estava passando ali perto, no chão,
não
tinha desses problemas, com certeza.
Pintinho
amarelo? Como assim? Realmente, ali perto passava um brinquedo desses,
mexendo
as patinhas, balançando um pouco, fazendo aquele ruído
típico
dos mecanismos de corda.
-
Mas
que diabo... - pensou Monstro, inclinando-se para ver
melhor.
Foi quando alguém empurrou a melancia, que caiu pesadamente no
seu
colo. O envelope pardo com o dinheiro foi habilmente substituído
por
um envelope meio amassado com os escritos do grande detetive. Junto com
a
melancia foi a taça de sorvete, melecando o traje caro de
Monstro.
Monstro,
zonzo pelo inesperado, viu-se às voltas com uma pesada melancia
que
dava todos os sinais de querer se atirar do seu colo e se espatifar no
chão
e uma taça de sorvete esparramado nas calças. Ao levantar
o
olhar mal pôde ver ao longe, virando uma esquina, uma ponta de
gabardine
cor de areia.
Com
o
rosto corado de vergonha, embolsou o envelope, colocou a melancia sobre
o
ombro esquerdo e foi saindo. Procurou fazer cara de "é
perfeitamente
normal andar por aqui com uma melancia ao ombro e sorvete escorrendo
pelas
calças", mas não deu muito certo.
A
situação
foi atrapalhada, para dizer o mínimo, mas
Monstro
em seguida começou a pensar no jantar que iria fazer
sábado
para os conhecidos para contar as aventuras, consideravelmente
enfeitadas,
claro.
X-8,
enquanto
isso, voltava para casa muito contente consigo mesmo. Conseguira
não
receber aquela figura desonesta no consultório onde ele dava duro
para
ganhar os seus luxos. E, escondido atrás de uma coluna, ainda
vira
a palavra se retirar, toda lambuzada, com o rosto vermelho e com uma
melancia
ao ombro.
Não
pôde evitar um pensamento:
-
Neste
trabalho só os cruéis sobrevivem!